Algumas das
minhas recordações de Monsenhor Horácio de Araújo
Nasceu em
12/01/1913 em Gomide Vila Verde, tendo desde muito cedo sentido o chamamento
para a vida sacerdotal, tendo sido ordenado em 15 de Agosto de 1935. Após a sua
ordenação, e em 29/09/35 foi nomeado vigário cooperador da paróquia de Ronfe, e
assumiu a responsabilidade de pároco em 24 de Abril de 1944. Foi sempre um
construtor de uma verdadeira unidade, não havendo nenhum sector que ele
descurasse. As crianças foram sempre uma das suas grandes predileções, estou a
lembrar-me da Cruzada Eucarística, o gosto enorme que colocava nas primeiras
Comunhões, e mais tarde nas comunhões Solenes, hoje mais conhecidas por
Profissão de Fé. Lembro aqui algumas das suas ajudas neste trabalho com crianças,
a Carolina (rasa) assim mais conhecida, e a Aurorinha Neves, que eram
incansáveis nos serviços de ajuda que lhe prestavam. O senhor António Rilha um
dos seus Sacristãos, O Avô do David Santos, tudo gente que mais de perto com
ele colaborava. No tempo do Monsenhor existiram em Ronfe muitos seminaristas, a
quem ele sempre deu o maior apoio, tendo uma grande satisfação na ordenação de
quatro sacerdotes, e muitas religiosas.
Pelo que
conheci de Monsenhor Horácio devo testemunhar o seu grande amor (predileção)
pelo escutismo. Ele foi o salvador da escola do C.N.E. no nosso Agrupamento,
ele tornou-se num verdadeiro escuteiro, fardando-se, participando em
Acampamentos, ensinou teatro, canções com letra que ele próprio escrevia, e por
isso o nosso Agrupamento lhe continuará agradecendo. Se hoje existimos em parte
a ele o devemos. Os mais antigos escutas sabem muito bem o quanto ele sofreu quando
entrou nesta freguesia, onde vários não o aceitavam, e até lhe predestinavam a
morte física, mas homem de Deus, com Deus sempre a seu lado, ele não vacilou,
não se amedrontou, lutou imenso, trabalhou imenso, deu a esta terra, e
principalmente ao escutismo muito da sua vida. Nessa altura não havia crise,
havia miséria, ignorância, falta de cultura, mas a sua vontade de servir a Deus
nas pessoas que lhe haviam sido confiadas era tal, que ele não olhava a
sacrifícios (fez muitos) mas valera imenso ao povo que lhe foi destinado. Em
poucos anos, aqueles que alimentavam más intenções em ralação à sua pessoa,
foram mudando de opinião, pois viram nele um homem de Deus a sério, e passaram
a colaborar ajudando a construir, em vez de destruir.
Eu falo
assim desassombradamente de um homem, com quem fui criado espiritualmente, com
o qual aprendi imenso, e pelo qual sempre tive uma grande estima, a qual ainda
hoje passados todos estes anos se mantem. Ele sabe-o hoje mais do que no
passado, pois todos os dias o lembro nas
minhas orações.
Foi com ele
que fiz a minha primeira comunhão, minha comunhão solene (profissão de Fé)
minhas promessas de escuteiro, e meu casamento. Portanto estou muito à-vontade
para falar daquele que foi também meu diretor espiritual durante muitos anos.
Estou-lhe eternamente grato, e por isso não o esqueço, como dádiva de gratidão.
Este grande
homem de Deus procurou, e fê-lo em minha opinião muito bem pregar a doutrina de
Jesus Cristo, de tal ordem que poderíamos estar horas seguidas a ouvi-lo,
porque não cansava, mas conseguia colocar-nos a chorar, tal era a força da sua
transmissão da palavra.
Este homem
de Deus tinha várias paixões mas duas delas eram de tal ordem tão evidentes que
qualquer um daqueles que como eu viveu de muito perto consigo, não tinha
dúvidas em classifica-las. Cristo Eucaristia, e Maria Mãe de Jesus. Estas eram
duas das suas paixões, e por isso tenho certeza que junto de Deus ele sempre
nos tem na sua intenção.
Estou-me
recordando da nossa ida a Fátima em família paroquial, com tantos autocarros
que naquele tempo era praticamente inédito, só Ronfe e pouco mais em todo o
País seria capaz de tal coisa. Todos vimos o seu zelo, a sua Fé, o seu amor
junto aos pés de Maria com uma grande parte dos que Deus lhe havia confiado, a
dizer-lhe Mãe estes são aqueles que o teu Filho me entregou, por quem venho
pedir, para que um dia estejamos todos juntos no Seu Reino. Não permitas
querida Mãe que nenhum se venha a perder, para que juntos possamos louvar e
bendizer o Senhor eternamente. São momentos inesquecíveis, que eu guardo no
coração, mas que entendi dever partilhar com aqueles que não os viveram,
dizendo-lhes que este homem de Deus está continuamente intercedendo por cada um
de nós os Ronfenses.
Homem de
trabalho incansável, dedicado à causa do Evangelho, mas com muitas ideias de
inovação para bem desta terra que lhe tinha sido confiada. Por ela lutou
incansavelmente, pessoa criativa, não teve medo de levar avante uma obra que
para aquele tempo era algo fora de serie, e muito poucos arriscariam como o foi
a construção do nosso salão paroquial. Quanto trabalho, quantas canseiras,
quantas horas sem conseguir dormir, quantas vezes se abeirou de gente poderosa
no meio politico para ver se conseguia ajudas para a grande obra que estávamos
a construir. Quanta imaginação teve para dar a volta por cima, quando as coisas
não decorriam como o desejado?
Lutou.
Lutou, e com a ajuda de muitos paroquianos, e outros extras, consegui-o levar a
carta a Garcia, tendo Ronfe ficado com condições que muitos á nossa volta não
tiveram a sorte ou o engenho para o conseguir.
Eu havia
falado no seu empenho para com o escutismo, porque foi aí que eu cresci, mas
seria injusto de minha parte não falar na ação Católica, a quem o Monsenhor dedicou
muito da sua vida por também lhe merecer um carinho muito especial.
Para além de
outras obras é de referir o restauro da nossa Igreja, a fundação do nosso
Centro Paroquial e Social, a construção da Capela Mortuária, e os benfeitores
que através do seu trato afável com as pessoas consegui-o, estou a lembrar-me
da D.na. Álea do Céu Pimentel, do Sr. António Teixeira de Melo, do Sr. Manuel
Gonçalves, do seu Filho José Manuel Gonçalves, da D.na. Delfina de Vasconcelos,
tudo gente boa e generosa que através do Monsenhor doaram a esta terra muitos
dos seus bens.
Em 1960
celebrou as bodas de prata, e o Santo Padre concedeu-lhe o título de Monsenhor.
Em Agosto de
1985 celebrou as suas bodas de ouro sacerdotais.
Monsenhor
Horácio sempre teve vontade de conhecer alguns países, recordo que foi ao
Brasil, e à terra Santa.
Em 1986 a
seu pedido deixou de paroquiar a freguesia em 01 de Janeiro de 1986.
Tive o privilégio
de colaborar com Monsenhor Horácio em várias atividades de âmbito religioso.
Para aqueles que não o saibam quero dizer-lhes que quando a Igreja decretou
eleger Ministros Sagrados da Comunhão, o Monsenhor não quis assumir (e podia
faze-lo) escolher os Ministros da Comunhão. Mas e preferiu falar na Igreja ao
povo, e convidou um responsável por cada família a estar presente na sala de
Cristo Rei, e foram esses que estiveram presentes que escolheram aqueles que a
partir dessa data passaram a assumir esse cargo. Tenho a ideia que foram
escolhidos o Sr. Engº Pinto Oliveira, a Dna. Maria (conhecida por M. Mocha), O Sr.
Lopes, o Sr. Marques (genro do chefe Martins) Josefina Campos, eu próprio, e
creio que a Rosa (na altura governanta da sua casa) mas não tenho certeza. O
Monsenhor embora conhecendo bem (em muitos casos) todas as pessoas, não quis
ser ele a fazer a escolha.
Consola-me a
recordação de o ter ajudado enquanto de mim precisou, e alegra-me ter tido essa
sorte, por se tratar de um homem de Deus, que me marcou pela positiva, e por
isso o recordo sempre com saudade.
Em 13 de
Outubro de 1955, na freguesia de Balasar, adormeceu santamente, nos braços do
Pai, Alexandrina da Costa, vulgarmente conhecida por "Alexandrina de
Balasar”.
A notícia da sua
morte na sua casa do Calvário – assim se intitulava o lugar onde vivia – para o
esplendor da Glória da imortalidade, correu célere por todo o País, trazendo para junto do seu cadáver, alguns
milhares de pessoas desejosas de prestar as últimas homenagens a quem, durante
a vida terrena, só teve a preocupação de fazer a vontade do Senhor. Eu tive conhecimento
dessa notícia, na freguesia de Arcos – Vila do Conde – onde então me encontrava
no ministério da pregação. Manhãzinha cedo, quando me dirigia para a Igreja
Paroquial, ouvia, aqui e além, grupos de pessoas comentando o acontecimento com
estas simples, mas significativas palavras: “Morreu a santa de Balasar”. Quis a
bondade do Senhor que participasse no seu funeral. E do que observei pude concluir
que o funeral da Alexandrina foi o primeiro dia da exaltação das suas virtudes.
Na verdade, a Igreja de Balasar, embora ampla e espaçosa, tornou-se bem pequena
para comportar o número de pessoas que ali acorriam de perto e de longe, a fim
de venerar um corpo que foi instrumento dócil duma alma que sempre o dominou e
venceu. E não era apenas a gente humilde do campo ou da fábrica, eram pessoas
de todas as classes sociais. Enquanto se celebravam os ofícios fúnebres, vi
homens da indústria, do comércio, militares graduados a desfilarem
ininterruptamente diante do seu cadáver, e beijavam aqueles pés que jamais
vacilaram no cumprimento do dever. Talvez, minhas Senhoras e meus Senhores,
pareça estranho que eu comece a falar da sua morte… é que a morte, bem sabe, é
o reflexo da vida, e preferi começar a falar sobre a sua morte para, agora,
algo dizer sobre a vida da Alexandrina de Balasar.
Será essa
dissertação um humilde depoimento do que eu vi, do que observei e do juízo que
faço sobre os factos que observei e de que fui testemunha ocular na sua vida.
Devo até dizer que evitei qualquer leitura ao preparar este modesto trabalho,
para não me deixar influenciar por essa mesma leitura. Vou sintetizar este meu
depoimento, este testemunho sobre a Alexandrina, nestes dois pontos: como
conheci a Alexandrina? Qual a minha opinião pessoal sobre a sua vida?
Como a conheci.
Decorria o ano de
1933: era eu aluno do Seminário Conciliar de Braga e, num retiro espiritual
preparatório para as Ordenações, o conferente falava de almas que se entregavam ao Senhor numa doação total e sem
reservas, oferecendo-se vítimas pela conversão dos pecadores. Recordo-me que
ele citava várias dessas almas e acrescentou: mas não é preciso recorrermos ao
passado: no presente nós temos destas almas, elas abundam em todo o mundo e
temos uma na nossa Diocese. E citou o caso de Balasar. Passados anos, a
obediência aos meus superiores hierárquicos levou-me para a freguesia de Ronfe,
onde me encontro. Várias vezes me falaram da Alexandrina de Balasar. Confesso
que, no princípio, mostrava-me um pouco indiferente. Depois, comecei por dizer:
ou isto é obra de Deus ou obra humana. Se for obra de Deus, Deus a começou e
Deus a completará. Se for obra humana, por não ter bases, num futuro mais ou
menos próximo, ela há-de ruir, porque nada é estável e duradoiro que se baseie
simplesmente naquilo que é humano. Passaram-se os anos e os fenómenos místicos
iam-se repetindo e a fama das suas virtudes voava de um extremo ao outro do
País, ultrapassando até as próprias fronteiras da Pátria, levada talvez por
emigrantes que fixavam a sua residência lá longe.
Tive então que
conhecer a Alexandrina, e bendigo ao Senhor por me ter proporcionado essa
ocasião. Um dia o correio trouxe-me às mãos uma carta da Alexandrina: era um
convite para pregar na sua freguesia, depois de prévia autorização do despectivo
pároco, convite este a que se seguiram alguns outros. Recordo-me da ocasião, e
vale bem a pena citar neste momento - porque vem mesmo a propósito - o porquê
desse convite. Creio que foi pelo ano de 1953, época em que várias incursões se
repetiam na Índia Portuguesa, numa tentativa de arrebatar aquilo que era nosso,
muito nosso. Tentativa essa que se tornou, bem o sabemos, um facto consumado.
Mas a Alexandrina era uma alma toda de Deus e amava a sua Pátria (e amar a
Pátria também é virtude, não é defeito), e, doente como estava na sua cama,
sabendo do que se passava, escreve-me uma carta a pedir-me para pregar uma
vigília em que durante a noite inteira a gente boa de Balasar se havia de
ajoelhar diante do Rei da paz, a pedir ao Senhor a integridade da nossa Pátria.
Fui, conversei com a Alexandrina e, desde então, as minhas visitas
repetiram-se, não tantas quanto eu desejava, porque a isso não mo permitiam os
meus deveres paroquiais. Só posso dizer, e devo dizer, que, sempre que falava
com a Alexandrina, eu vinha mais sacerdote, tinha mais zelo pela salvação das
almas. Nunca nos lábios da Alexandrina uma conversa banal: ou falava de Deus ou
das coisas que a Deus conduziam. E isto, meus Senhores, não constitui surpresa
para ninguém: a palavra transborda do coração, e quando um coração está cheio
de Deus, a palavra sabe ao divino. Por isso na boca da Alexandrina ou se falava
de Deus ou das coisas que ao Senhor conduzem.
Um dia, durante
cerca de meia hora, falava-me a Alexandrina do mistério da SS. Trindade, da
vida íntima de Deus e da graça santificante. Recordo esse dia como se fosse: e
não sei que mais admirar nessa conversa que teve comigo, se a elevação, a
sublimidade dos conceitos, se a clareza da linguagem. E nós sabemos muito bem
que tratando-se destes assuntos não é fácil aliar as duas coisas. Pergunto: donde
veio este conhecimento à Alexandrina? Ela tinha uma cultura rudimentar. Ela não
leu grandes compêndios de teologia... Donde lhe veio, Senhores, esta ciência?
Esta ciência veio do Autor de toda a ciência da, da Ciência incriada, da
Ciência infalível, veio-lhe do Senhor. Falava desta ciência, da vida íntima de
Deus, como o mais hábil teólogo, como ninguém podia falar de coisas tão altas,
tão sublimes. Uma alma que vivia sempre na maior intimidade com Deus! É que o
Senhor esconde estas coisas aos sábios e dá-as a conhecer aos humildes: Abscondisti haec a sapientibus.
O Senhor, junto do
Mar de Tebe ríades, prega um dia um grande sermão, que poderemos reduzir em
oito capítulos – oito pontos fundamentais - as oito bem-aventuranças. E uma
dessas era: Bem-aventurados os puros do coração! É que, meus Senhores, as almas
puras veem a Deus contemplam a Deus, não como eu contemplo os meus ouvintes nem
como os meus ouvintes me contemplam a mim, mas para me servir da imagem do
Apóstolo, como através de um espelho, assim como o sol quando se reflecte num
cristal puríssimo parece condensar-se naquele cristal e quando eu olho o
cristal atravessado pelos raios solares tenho a impressão de que ali vejo o
próprio sol, sem no entanto o vidro deixar de ser vidro, assim também na alma
pura reflecte-se a divindade e ela tem um conhecimento profundo de Nosso Senhor
Jesus Cristo, de Deus e da Sua vida íntima. Porquê encontramos nós criancinhas
inocentes e humildes a falarem de Deus com uma elevação que nos espanta? Por
causa da sua pureza. Assim a Alexandrina. Não admira, pois, que ela mais
falasse.
Estive presente em
alguns dos seus êxtases, com licença do assistente, Sr. Dr. Azevedo, a quem me
confesso muito grato por esta deferência, mas confesso que não foram os êxtases
que mais me impressionaram, se bem que ao assistir aos êxtases da Alexandrina
concluí que nesses havia a intervenção sobrenatural. Eram êxtases místicos,
muito diferentes de fenómenos provenientes de origem mórbida, em que o
paciente, após o êxtase – se assim lhe podemos chamar - quando regressa ao seu
estado normal, encontra-se abatido, cansado, fatigadíssimo, a ponto de por
vezes nem poder articular palavra. Mas eu vi como a Alexandrina - permita-se-me
a expressão - despertava do seu êxtase: ela perecia outra, mas sempre a
mesma. A limpidez do seu olhar, o equilíbrio dos seus gestos, das suas
atitudes, a suavidade das suas palavras, enfim, tudo nela fazia crer que
estávamos perante uma criatura normal. Nunca duvidei dos seus êxtases. Mas o
que mais me impressionou eram as palavras que a Alexandrina dirigia aos
circunstantes – e não eram muitos - que tomavam parte nesses êxtases. Estava,
belo dia, com cinco sacerdotes da Diocese da Diocese do Porto. A Alexandrina
entra em êxtase. No fim do êxtase olhou para nós, falou do sacerdócio, da
necessidade de padres santos… e confesso que nunca ninguém me falar assim. E um
dos presentes, da Diocese do Porto – tenho pena de não recordar o seu nome,
para o citar - voltou-se para mim e disse: “Padre, que diz de tudo isto?” E eu disse-lhe:
“Colega, gostei mais do após-êxtase do que do êxtase até. Nunca ninguém me
soube falar assim da santidade, da necessidade da santidade do sacerdote. Tenho
a impressão, acrescentei, que o Espírito Santo falou pela boca da Alexandrina”.
Os colegas presentes concordaram todos plenamente comigo. Era assim a
Alexandrina, assim a conheci.
Que penso eu da Alexandrina? Que juízo faço dela através
desses contactos pessoais?
De tudo tirei uma
'conclusão: a Alexandrina era uma alma que vivia na intimidade com Deus.
Intimidade esta que a levava à contemplação do divino. Só assim se pode
explicar a maneira como ela falava de Deus e dos mistérios Fé. Em segundo
lugar, a Alexandrina era uma presença de Cristo, presença viva, presença
irradiante. Cristo transparecia nela como a luz através do cristal.
Transparecia na pureza do seu olhar, na serenidade do seu rosto, nos seus
gestos, nas suas atitudes: vê-la era ver a Cristo. Sim, presença viva e
irradiante, pois que, meus Senhores, quando Deus está presente puma alma, não
está inativo, e esta presença manifesta-se, revela-se, é um fogo que aquece, e
quem está junto de nós tem a noção desta presença. E quantos se aproximavam da
Alexandrina, desencontrados com Deus e quando se afastavam do seu quartinho,
modesto e simples, já tinham encontrado a Deus! Afastavam-se chorando os seus
pecados - há testemunhas - e dali corriam pressurosos para junto de um
confessor, a fim de lavar as suas culpas no banho salutar da Penitência. Era
assim a Alexandrina: uma presença de Cristo, viva e irradiante. Era apaixonada
pelos pecadores; vivia para eles. Por eles oferecera a sua vida ao Senhor,
estava em tudo associada à Paixão do Senhor, era uma corredentora com Cristo.
Algumas vezes lhe ouviu estas palavras: “Os pecadores não ouvem, não ouvem os
pedidos de Jesus, não acolhem as suas súplicas. Que pena eu tenho de
Jesus!" - E assim oferecia os seus sofrimentos. Com que resignação e
inalterável paciência sofria a Alexandrina de Balasar! Como ela sabia falar aos
pecadores! Como ela penetrava no íntimo das suas almas e como ela conseguia
transformar os corações! Dir-se-ia que o Senhor escolhera no século XX aquela
vítima para Lhe dar almas, muitas almas, e ela cumpriu a sua missão.
Porque ele amava
tanto a Jesus, com amor ardente e generoso, ela também não podia deixar de amar
ardentemente a Mãe de Jesus, a Virgem Imaculada. Algumas vezes, entrando no seu
quarto, encontrei-a com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima nas mãos. Olhava
para ela com aquela ternura, com aquele carinho com que uma filha olha para a
mãe. Chamava-lhe muitas vezes a Mãezinha do Céu, a quem recorria nas duras
provas a que o Senhor a submeteu. Não esqueçamos que as almas a quem Deus mais
ama são as almas a quem o Senhor faz passar as maiores provações; e ela teve-as,
porque o Senhor a amava muito.
Pois bem, no meio
dessas provações, ela recorreu continuamente à Mãezinha, como ela dizia. - E de
Jesus e de Maria ela aprendeu a virtude da humildade. Aprendeu na escola do
Mestre: “Aprendei de Mim que sou manso e humilde de coração”, diz o Senhor. E
permitam-me que lhes conte como em certo dia eu quis experimentar a sua
humildade. Perdoe-me o Senhor esta temeridade. Diz-lhe esta pergunta:
Alexandrina consta por aí que recebeu do Céu o dom, o carisma especial do discernimento
dos espíritos, isto é, consta que a Alexandrina sabe o que se passa nas
consciências. Eu mesmo estava à espera duma resposta afirmativa ou negativa.
Se me respondesse sim, eu não tinha que duvidar, porque a humildade é verdade;
no entanto devo dizer que gostei muito mais da resposta que me deu, porque vi
mais uma vez que e Alexandrina de Balasar procurava esconder-se - ama nesciri. Era o lema da sua vida; ela
gostava de ocultar as suas virtudes aos olhos do mundo. E querem saber a
resposta? Vale a pena ouvi-la. “O senhor Padre, disse ela, dedica-se a
pregação, e tem-lhe acontecido, certamente, uma vez ou outra, tratar de um
assunto determinado nos púlpitos sagrados, e alguém talvez o tenha abordado no
fim do sermão para lhe dizer, a propósito ou até a despropósito: - O senhor
parece que adivinhou a minha vida, o senhor acertou em cheio o que se passa cá
dentro da minha alma. Como é que o senhor soube isto? – Ora, comigo dá-se a mesma coisa. Como sabe,
recebo frequentes visitas, diariamente. Olho para as pessoas (pela aragem em se
vê quem vem na carruagem), falo para essas pessoas, dou-lhes os meus conselhos,
tendo em conta o que ouvi no decorrer da conversa, tendo em conta a idade, as
condições da vida, o estado, o ambiente em que vivem, etc. portanto, eu vejo
mais ou menos os conselhos que competem a esta ou àquela classe depois e é
natural que o chapéu assente multas vezes e perfeitamente nesta ou naquela
pessoa. Ora, é a razão por que dizem que adivinho, tal e qual como acontece com
V. Rev.cia”. Devo dizer que gostei imenso daquela resposta. Compreendem a razão
da minha pergunta...
Não queria abusar
mais da vossa paciência e, portanto, vou sintetizar num minuto tudo o que disse
em todo este tempo:
Primeiro: a
Alexandrina foi uma apaixonada de Deus e uma apaixonada dos pecadores.
Segundo: a
Alexandrina adotou por lema da sua vida o do Apóstolo: Mihi vivere Christus est, o meu viver é Cristo.
Terceiro: os
caminhos que levaram a Alexandrina à santidade, melhor direi, ao encontro de
Cristo foram os da pureza e de humildade. Evidentemente isto supõe uma fé viva
e ao mesmo tempo um esperança, uma confiança ilimitada.
Quarto: a
Alexandrina ofereceu-se como vítima ao Senhor, e o Senhor aceitou esta oferta.
E um dia, numa casa
de Balasar, modesta e pobre, onde ela vivera o seu-martírio prolongado, um dia,
um quarto transformou-se em autêntico calvário, uma cama transformou-se numa
cruz, pregada nessa cruz uma vítima, essa vítima é a Serva de Deus Alexandrina
Maria da Costa.
E Deus, que se
compraz em premiar aqueles que Lhe são fiéis, cumprirá ou cumpre a Sua palavra;
e a palavra do Senhor é esta, que todos conhecemos muito bem: Aquele que se
humilha será exaltado, será glorificado. Per
crucem ad lucem. Pela cruz à luz imarcescível da glória.
E, para finalizar,
permitam-me os de Balasar: sede dignos do grande tesouro que a vossa freguesia
encerra, dai graças ao Senhor!
Tenho dito.
