CASA DO POVO
Creio nada ter existido no âmbito cultural e associativo,
antes do aparecimento da Casa do Povo. Esta foi fundada no início de 1934. O
seu funcionamento e organização inicial, configurava o estatuto de uma
associação.
A nível nacional, as
Casas do Povo foram oficialmente criadas em 1933 para apoiar o desenvolvimento
do mundo rural, sendo consideradas, segundo a lei, organismos de cooperação
social, com personalidade jurídica, tendo por objectivo assegurar aos sócios proteção
e auxílio em caso de doença, desemprego, inabilidade e velhice.
A prioridade de atuação
das casas do povo era intervir social e culturalmente junto da população rural,
exercendo também funções de previdência, dentro de um esquema de mutualidade,
desde que registasse um mínimo de 100 associados.
O funcionamento deste
esquema cooperativo previa ainda os sócios protetores, ou seja, os
proprietários rurais da freguesia, a quem cabia patrocinar as iniciativas
socioculturais das Casas do Povo e apoiar monetariamente o esquema de
previdência vigente.
Foi nestes moldes que
a Casa do Povo de Ronfe, nasceu e exerceu a sua função durante muitos anos.
Curiosamente, a Casa
do Povo, apoiou a fundação do Escutismo na freguesia. Disso, dá conta a ata
nº.28, de uma reunião realizada no dia 8 de Agosto de 1935.
A tradição musical,
ainda hoje bem viva, teve a sua origem com a Orquestra de Ronfe, na década de
quarenta, apoiada pela Casa do Povo.
O seu parque, apesar
de pequeno, era ao tempo local aprazível. Com frondosas árvores e ruas bem
delineadas. Possuía um artístico lago, atravessado por esbelta ponte, obra do
Senhor Armindo Silvério Ferreira, mais conhecido por “Armindo dos Infernos”.
O salão da Casa do Povo, foi durante muitos anos, onde o
Escutismo local, levou à cena dezenas de peças de teatro, espetáculos musicais
e de variedades.
O cinema, também ali
teve lugar durante alguns anos, A prática de Voleibol e Tiro aos Pratos, foram
modalidades praticadas no despectivo parque. O Folclore, nasceu ali, e ali
morreu num passado não distante, e da forma mais vil.
Custódio Oliveira
Algumas coisas já sabia outras não, contudo sei dizer que
minha saudosa Mãe foi socia da Casa do Povo, e o custo do seu funeral foi pago
pela Casa do Povo. Conheço como muitos e até melhor que alguns o antigo parque da
Casa do Povo, pois vivi com minha Mãe na dita casa dos pobres de quem foi
cozinheira durante vários anos. Fui aluno da escola hoje degradada com a bonita
e grande Srª Professora Dna. Helena. Recordo que com os meus cinco anos foi ali
que tive um dos maiores medos da minha vida quando fomos vitimas de um grande
tremor de terra, em que se ouviam as mesas e cadeiras onde os pobres comiam a
fazerem um enorme barulho, e minha Mãe me dizia, não tenhas medo meu menino
isto passa, e sabe-se lá na altura o enorme medo que ela mesmo sentia.
Recordando tudo isto deixo aqui apenas o meu lamento sobre a destruição do
excelente parque da dita Casa do Povo, com o corte de árvores centenárias,
lamentando nessa altura não ter visto qualquer tipo de preocupação, como infelizmente
mais tarde aconteceu com o corte de árvores junto ao cemitério, essas sim que
estavam a prejudicar. Agradeço ao Jonel trazer a público este testemunho para
que sejam conhecidas e reconhecidas as funções meritórias da instituição. E
esquecendo tudo o mais, passado é passado, os atos bons e menos bons ficam
sempre com quem os pratica, vamos em frente porque o edifício Casa do Povo e
todo o seu historial deve merecer muito respeito aos Ronfenses e habitantes de
terras vizinhas. Por isso me regozijo com aqueles que lutando contra tudo e
contra todos tornaram possível este volte face, e creio e espero que os que
voluntariamente se assumiram para lhe dar vida, sejam bem-sucedidos. No que eu
possa contem com minha modesta ajuda sempre pelo bem da comunidade em que desde
há muito estou inserido. Parabéns Jonel, grande abraço.
Orlando Azevedo Realmente a memória é como as cerejas:
pega-se numa e as outras entrelaçam-se e vêm atrás. A crónica do Custódio
trouxe-me à memória situações semelhantes que lá vivi.
Será que existe algum
acervo histórico desse tempo? Tenho comigo uma monografia sobre a Vila de
Ronfe- escrita há bem pouco tempo, mas desse passado nada reza. É pena. Um povo sem passado, é um povo sem memória, sem referências sem valores.
Anotei a referência do conterranio e amigo Orlando Azevedo, que tendo lido o meu texto para (Memória futura) lembrou e muito bem que a memória é como as cerejas. Quanto á pergunta sobre o dito cebro histórico, tenho em meu poder um livro que adquiri editado em 1999 de Ana Silvia Volpi Scott, que nos fala sobre Famílias, Formas de União e Reprodução Social no Noroeste Português, dos (Séculos XVIII e XIX) cuja foto de capa é a entrada para uma quinta (penso eu) ao lado da antiga cadeia que fizeram o favor de destruír. Contudo este livro tem um lindo historial sobre Ronfe que muitos dos filhos desta terra deviam ler para conhecerem parte das suas origens. Como nem todos o obtiveram, logo que me seja possivel escreverei alguns dados históricos do mesmo.